
No discurso da vitória, o presidente Bush fez questão de reservar um agradecimento especial a
Karl Rove. Mas agora que Bush chegou ao ponto máximo e Rove não tem que se preocupar com uma próxima eleição para o chefe, quais vão ser os objectivos deste consultor elogiados por uns, criticado por outros mas considerado um prodígio por quase todos?
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O que Karl Rove sabe fazer é ganhar eleições, e a agenda dele agora é fortalecer a posição do Partido Republicano nos Estados Unidos independentemente de Bush", diz o cientista político Mark Rom, professor da Instituto de Políticas Públicas da Universidade Georgetown, em Washington.
Garantiu não só a presidência dos Estados Unidos para Bush como também uma ampliação nas maiorias dos republicanos na Câmara dos Representantes e no Senado.
Dois aspectos fundamentais desta estratégia foram as acções do governo contra o casamento homossexual e contra o aborto (incluindo as pesquisas com células de embriões).
As pesquisas mostram que cerca de um quinto dos eleitores que foram às urnas fizeram-no em defesa de valores morais e que aproximadamente 80% destes votaram em Bush sugerem que
Karl Rove marcou mais um ponto.
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Com certeza Karl Rove é um filtro e explica ao presidente como certas políticas vão afectar a popularidade dele. Acho que ele tem também alguma influência no modo como as políticas são apresentadas, mas acredito que as decisões do presidente são mais influenciadas por outros assessores", opina o cientista político John Todd, da Universidade do Norte do Texas.
Este ano, a polémica sobre o casamento homossexual, iniciada pelo Suprema Corte de Massachusetts, mas super-alimentada pela Casa Branca, levou 11 estados a incluírem na cédula presidencial uma pergunta sobre a legalidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nos 11 estados, o casamento homossexual acabou proibido pelo voto popular.
Rove não admite publicamente, mas tanto os críticos quanto os simpatizantes acreditam que ele teve participação chave nos arranjos que levaram à consulta popular nestes estados, não porque ele estivesse preocupado com a defesa do casamento, mas para dar um motivo a mais para que eleitores conservadores fossem até as urnas no dia das eleições.
Dos onze estados onde a medida foi adoptada, oito já estavam garantidos para Bush e apenas três estavam entre os disputados "estados-chave". Nestes estados já claramente republicanos, a estratégia foi ganhar terreno político para o partido em eleições locais e legislativas.
Há também entre os republicanos, o temor de que o apelo de Rove à base conservadora do presidente acabe por afastar os eleitores mais moderados.

Mas em entrevistas à imprensa Rove contestou as análises que dizem que os cristãos conservadores são privilegiados nas estratégias políticas dele. "
O presidente Bush foi eleito com 58 milhões de votos, a maior votação da história para um presidente americano. Vocês acham que teríamos conseguido isso com uma base tão limitada (de conservadores)?", perguntou Rove numa entrevista ao jornal The New York Times.
Para o cientista político Mark Rom, Karl Rove pode adaptar-se muito bem a ventos mais liberais se tiver que trabalhar, no futuro, directa ou indirectamente, com estrelas em ascensão do partido republicano, que têm posições bem menos socialmente conservadoras do que o presidente Bush, como o ex. prefeito de Nova York Rudolph Giuliani e o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger.
"A filosofia política de Karl Rove é ganhar votos."
Sejam quais forem os planos de Karl Rove, todos concordam que ele deve executá-los como sempre fez: em silêncio e agindo nos bastidores para apanhar os adversários de surpresa.
Quando as enormes filas no dia da eleição deixaram claro que a participação nas eleições seria um recorde, todos os analistas disseram que os democratas estavam a um passo da vitória.
Quando os votos começaram a ser contados, apareceu a surpresa de Karl Rove. "Rove é um consultor político de aluguer, extremamente habilidoso e que por muitos anos ainda vai ter espaço na política americana", é a opinião da professora de comunicação da Universidade de Georgetown, Diana Owen.
Análise ao DVD Bush’s Brain
Bush’s Brain (O Cérebro de Bush), um documentário dirigido por Joseph Mealey e Michael Shoob, retrata semelhanças impressionantes entre o que tem vindo a acontecer na campanha presidencial norte-americana e algumas das tácticas sujas empregadas por Karl Rove (o tal 'Cérebro') em todos os seus esforços passados para eleger os seus candidatos.
Baseado no livro de James C. Moore e Wayne Slater, Bush’s Brain procura investigar a inegável influência que Rove, o principal conselheiro de Bush, exerce sobre a gestão do auto-proclamado 'presidente da guerra' e, no processo, deixa claro que Dubya (como ele pronuncia a letra 'W' de seu sobrenome) não teria sequer conseguido se eleger governador do Texas caso não contasse com a ajuda do sujeito. Ainda assim, é de destacar quanto ao formato do filme, que, na maior parte do tempo, adopta um estilo mais apropriado a um programa jornalístico produzido para a televisão do que a um longa-metragem realizada para o
Cinema: o projecto gráfico é pobre, os fades constantes dão a impressão de que haverá uma pausa para os comerciais e, para piorar, os directores praticamente não utilizam imagens de arquivo para complementar as informações, apostando mais nos depoimentos dos entrevistados (as famosas 'cabeças falantes'). A impressão é a de que Mealey e Shoob limitaram-se a procurar algumas das pessoas citadas no livro e convencê-las a repetir as histórias em frente à câmara.

No entanto, o importante conteúdo de Bush’s Brain não pode ser diminuído em função das falhas narrativas e estéticas. É assustador, por exemplo, constatar como a campanha de George W. Bush pela reeleição já vem empregando uma série de tácticas descritas no filme.
Se há algo em que os conservadores norte-americanos são mestres é na manipulação dos media.
O caso Valerie PlamePode dizer-se que o caso Plame
é mais um dos escândalos para o presidente dos Estados Unidos, desde que chegou ao poder, em Janeiro 2001. Além de afirmar a existência de uma Casa Branca vingativa, que não tolera críticas, sobretudo se feitas contra a guerra que Bush lançou unilateralmente contra o Iraque em 2003, este escândalo explode quando o presidente se encontra no ponto mais baixo do apoio popular, apenas 39%, e também projecta uma turva sombra sobre seus colaboradores mais directos, incluindo sua mão direita, o vice-presidente Richard Cheney e seu cérebro político,
Karl Rove. Mas, vamos por partes.
1 – O fiscal especial, Patrik Fitzgerald investiga, desde Dezembro 2003, se alguém do governo revelou que Valerie Plame era agente secreta da CIA, em represália contra seu marido, o embaixador dos Estados Unidos no Gabão,
Joseph Wilson. O pecado deste diplomata foi denunciar, publicamente, a falsidade dum dos argumentos centrais de Bush, para justificar a guerra contra o Iraque: que Saddam Hussein tentava comprar urânio no Níger para fabricar armas nucleares. Em Fevereiro 2002, Wilson viajou para o país africano, enviado pela CIA, para averiguar se a acusação era certa. Embora no seu regresso tenha informado que não, meses depois Bush empregou-a contra Saddam no seu discurso sobre o estado do país, a 28 de Janeiro 2003. Apenas dois meses mais tarde, ordenou a invasão. A 6 de Julho desse ano, Wilson publicou no The New York Times um artigo no qual denunciou a falsidade da acusação de Bush. Oito dias depois, o trabalho secreto de sua esposa foi revelado no The Chicago-Sun Times, pelo colunista Robert Novak, que citou dois altos funcionários do governo.
2 – Fitzgerald, que é uma espécie de Eliot Ness diplomado em Harvard e com sentido de humor, segundo a descrição dele feita quando o encarregaram do caso, mandou sentar no “banco” os grandes amigos de Bush, começando por Karl Rove, arquitecto das vitórias eleitorais do presidente e seu guru político. Se bem que tenha comparecido quatro vezes perante o Grande Júri e tenha reconhecido ter falado de Plame com jornalistas, não foi imputado, por agora. Lewis Scooter, chefe de gabinete e assessor político de Cheney, também falou de Plame com jornalistas e com Rove. Ante o Grande júri afirmou ter sido Cheney quem lhe revelou a identidade da agente secreta. Foi processado por cinco acusações diferentes. As vítimas desta conspiração foram Plame, 42 anos, que ocultava ser agente da CIA, fazendo-se passar por analista financeira duma empresa de Bóston, e seu marido, o diplomata de 55 anos, que deixou o serviço para se dedicar a uma consultadoria internacional.

3 – O colunista Robert Novak, foi a espoleta do caso Plame, mas não revelou a sua fonte, não tendo sido chamado a depor perante o Grande Júri, pelo que se crê ter cooperado com o fiscal Fitzgerald. A maior notoriedade entre os jornalistas foi Judith Miller. Esta repórter do NYT, questionada pelos próximos da tese de Bush nos seus artigos sobre a guerra do Iraque, passou 85 dias na prisão, por se negar a revelar suas fontes, se bem que não tenha chegado a escrever sobre o tema. Testemunhou depois que não se lembrava quem lhe revelou a identidade de Plame, embora tenha falado dela com Libby.Matthew Cooper, da Time, também falou com Libby e Rove sobre Plame, mas iludiu ir para a cadeia, testemunhando perante o GJ, com autorização de suas fontes. Outros jornalistas interrogados durante a investigação por seus contactos com Libby e Rove, foram Tim Russert da cadeia NBC e Glenn Kessler do The Washington Post.
4 – Além de procurar quem revelou a identidade de Valerie Plame, Fitzgerald investigou se houve delitos de perjúrio, obstrução à justiça, destruição de provas ou intimidação de testemunhas para encobrir a revelação do trabalho secreto desta agente da CIA. Esta revelação constitui um delito propositado.Libby declarou que foi seu superior, o vice-presidente Cheney que lhe revelou a verdadeira identidade de Plame, após tê-la averiguado pessoalmente, perguntado ao então director da CIA, George Tenet, que também foi entrevistado por Fitzgerald. No entanto, tanto Cheney como Libby têm, legalmente acesso à informação secreta do governo, devido a seus cargos, pelo que não seria ilegal se falassem de Plame, a menos que o fiscal pudesse determinar que o fizeram com a intenção expressa de revelar, publicamente, a sua identidade secreta.